O que é o Estado de Transe Hipnótico? Como Funciona

Sempre que falo sobre hipnoterapia, há uma palavra que aparece quase de imediato: transe. E percebo que para muita gente esta palavra carrega um peso misterioso, quase sobrenatural. Como se entrar em transe fosse desligar de alguma forma.

Não é nada disso.

O estado de transe hipnótico é, na verdade, um estado natural que já viveste muitas vezes na vida, mesmo sem te dares conta. Neste artigo vou explicar o que é, o que acontece no teu cérebro nesse momento, e responder à pergunta que mais me fazem: é possível resistir à hipnose?

O que é, de facto, o transe hipnótico

O transe hipnótico é um estado de atenção focada e relaxamento profundo, em que a mente fica mais recetiva e menos filtrada pelo pensamento crítico habitual.

Não é sono. Não é inconsciência. Não é perda de controlo.

É mais parecido com aqueles momentos em que estás tão concentrado numa tarefa que perdes a noção do tempo, ou quando estás a conduzir um percurso que já fazes todos os dias e chegas ao destino sem te lembrares conscientemente do caminho. O teu cérebro estava a funcionar perfeitamente bem, só que num modo diferente, mais automático e menos analítico.

Esse é exatamente o tipo de estado que utilizo, de forma guiada e intencional, numa sessão de hipnoterapia.

O que acontece no cérebro durante o transe

Estudos com neuroimagem mostram que, durante o estado hipnótico, há uma redução de atividade numa zona do cérebro chamada córtex pré-frontal dorsolateral, responsável pelo pensamento crítico e analítico. Ao mesmo tempo, mantém-se ou até aumenta a atividade em zonas ligadas à imaginação e ao processamento emocional.

Na prática, isto significa que a parte da tua mente que normalmente analisa, julga e questiona tudo fica um pouco mais silenciosa, enquanto a parte que sente, imagina e absorve fica mais ativa.

É por isso que, em transe, és mais recetivo a novas formas de olhar para um problema, uma memória ou uma crença. Não porque a tua vontade desapareceu, mas porque o filtro crítico que normalmente bloqueia certas mudanças está temporariamente mais flexível.

Existem diferentes níveis de transe?

Sim. O transe hipnótico não é um estado único e fixo, existe antes uma escala, que vai desde um relaxamento leve até estados muito profundos.

Transe leve. Sentes-te relaxado/a, com os pensamentos mais lentos, mas continuas perfeitamente atento/a ao que se passa à tua volta. A maioria das sessões de hipnoterapia trabalha confortavelmente neste nível ou um pouco mais profundo.

Transe médio. O corpo fica muito relaxado, a noção do tempo pode alterar-se ligeiramente, e a recetividade a sugestões aumenta.

Transe profundo. Estados mais raros, em que a pessoa pode ter uma sensação de desligamento maior do ambiente externo, embora continue sempre consciente e capaz de interromper o processo.

Cada pessoa tem a sua forma natural de responder, e não existe um nível certo ou melhor para que a hipnoterapia funcione. O trabalho terapêutico acontece de forma eficaz mesmo em estados de transe leve a médio.

É possível resistir à hipnose?

Esta é, sem dúvida, uma das perguntas mais frequentes que recebo. E a resposta curta é: sim, completamente.

A hipnose exige sempre colaboração ativa da pessoa. Se não quiseres entrar em transe, simplesmente não entras. Se durante a sessão sentires desconforto com alguma sugestão, a tua mente rejeita-a automaticamente, sem que precises de fazer nada de especial para isso.

Isto também significa que não é possível obrigar alguém a entrar em hipnose contra a sua vontade, nem fazer alguém agir contra os seus valores enquanto está em transe. A vontade própria nunca desaparece.

Curiosamente, as pessoas que tentam resistir de forma muito ativa durante uma sessão, por desconfiança ou medo, costumam ter mais dificuldade em relaxar o suficiente para entrar em transe, precisamente porque estão demasiado concentradas em manter o controlo de forma rígida. Paradoxalmente, soltar um pouco essa vigilância é o que permite ao processo acontecer.

Hipnose e consciência: estás sempre presente

Um dos maiores receios que ouço é o medo de desligar e não saber o que se passou durante a sessão.

Na prática clínica, isso não acontece. Estás consciente durante todo o processo. Ouves o que digo, processas a informação, e na grande maioria dos casos lembras-te perfeitamente de tudo o que aconteceu depois da sessão terminar.

Existem casos raros de amnésia hipnótica, normalmente associados a estados de transe muito profundos e trabalhados de forma muito específica, mas não é o cenário comum nem o objetivo habitual do trabalho terapêutico.

Por que razão este estado é tão útil terapeuticamente

Voltando à pergunta inicial: porque é que vale a pena trabalhar neste estado em vez de simplesmente conversar, como numa consulta de psicologia tradicional?

Porque muitos dos padrões que nos limitam, como crenças instaladas na infância, memórias traumáticas ou hábitos automáticos, vivem numa parte da mente que o pensamento racional, por si só, tem dificuldade em alcançar. O estado de transe cria uma ponte de acesso mais direta a essa parte, permitindo um trabalho de ressignificação mais profundo e, muitas vezes, mais rápido.

Se quiseres entender melhor como esse trabalho acontece na prática, tenho um artigo completo sobre o que é a hipnoterapia, onde explico todo o processo passo a passo.

FAQ: Perguntas frequentes

Vou lembrar-me de tudo depois da sessão?

Sim, na grande maioria dos casos. A amnésia completa é rara e não é o objetivo do trabalho terapêutico.

Posso ficar preso em transe?

Não. O estado de transe termina naturalmente, mesmo sem intervenção externa, da mesma forma que adormecer e despertar acontecem sem esforço.

Pessoas mais racionais ou analíticas conseguem entrar em transe?

Sim. A capacidade analítica não impede a hipnose, apenas pode exigir uma abordagem ligeiramente diferente na indução.

Quanto tempo dura, normalmente, o estado de transe numa sessão?

Varia, mas costuma situar-se entre 20 e 40 minutos dentro de uma sessão de hipnoterapia.

É normal sentir os braços ou pernas pesados, ou pelo contrário muito leves?

Sim, são sensações muito comuns durante o transe e fazem parte do relaxamento profundo do corpo.

Queres experimentar este estado num contexto seguro?

Se este artigo te ajudou a perceber que o transe hipnótico não tem nada de assustador, talvez seja hora de experimentares, num ambiente confidencial e ao teu ritmo.

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Para perceberes melhor todo o processo terapêutico, lê também o artigo o que é a hipnoterapia ou explora os meus serviços.

Soraia Monte é Hipnoterapeuta Sistémica com formação em Hipnoterapia Clínica, Transpessoal e Constelações Sistémicas. Trabalha presencialmente em Almada e online para todo o país.